A decisão sobre qual blockchain usar não é técnica quando as premissas e os trade-offs estratégicos são mais importantes
Em 2024, a startup brasileira Mannah concluiu a maior operação de tokenização de ativos do mundo real (RWA) da América Latina: R$ 1 bilhão em precatórios, dívidas judiciais que governos devem pagar, escolhendo a rede Hathor Network.
No mesmo período, a MB Tokens distribuiu R$ 228 milhões em tokens lastreados em recebíveis, enquanto a Liqi captou R$ 62 milhões em ofertas para investidores de varejo, crescimento de 152% em relação a 2022.
Essas empresas enfrentaram a mesma decisão que qualquer projeto de tokenização precisa tomar: qual rede blockchain usar? Ethereum, com seu ecossistema consolidado, mas com taxas que podem ultrapassar US$ 0,44 por transação? Solana, prometendo milhares de transações por segundo a centavos de dólar? Polygon, oferecendo compatibilidade com Ethereum mas operando como camada secundária (layer 2)?
A resposta não está nos documentos técnicos das blockchains. Está nas premissas e nos trade-offs, ou seja, nas trocas inevitáveis entre velocidade, custo, descentralização, compatibilidade e maturidade regulatória que cada rede oferece.
Este artigo explora:
- Como as arquiteturas técnicas de Ethereum (EVM), Solana (SVM) e Polygon afetam a implementação de contratos inteligentes para tokenização
- Qual rede as empresas brasileiras estão escolhendo e por quê
- Como o contexto regulatório brasileiro (CVM, Banco Central) influencia essas decisões
O que realmente diferencia essas redes
Ethereum, Solana e Polygon não são simplesmente as blockchains mais rápidas ou as mais baratas umas que as outras. São arquiteturas fundamentalmente diferentes que processam contratos inteligentes (smart contracts) de formas distintas.
Ethereum opera com a Ethereum Virtual Machine (EVM, máquina virtual Ethereum), um ambiente de execução onde contratos inteligentes escritos em Solidity, linguagem de programação criada especificamente para blockchain, são executados de forma sequencial, ou seja, uma transação por vez. Segundo dados da Ledger Academy de novembro de 2025, a rede principal do Ethereum processa entre 15 e 30 transações por segundo (TPS, Transactions Per Second), enquanto suas soluções de camada 2 como Arbitrum alcançam teoricamente 40.000 TPS.
Solana usa uma abordagem radicalmente diferente. Em vez de uma máquina virtual como a EVM, compila contratos, chamados de “programas” em Solana, diretamente em código de máquina nativo usando Rust ou C++. Segundo análise da Backpack Exchange de 2026, Solana processa entre 600 e 700 TPS em condições reais, com capacidade teórica de 65.000 TPS. A diferença vem do mecanismo Sealevel, que permite a execução paralela de múltiplos contratos simultaneamente quando eles não acessam os mesmos dados.
Polygon funciona como uma solução de escalonamento (scaling solution) para Ethereum. Mantém compatibilidade total com a EVM mas opera como sidechain, ou seja, uma rede paralela que processa transações fora da rede principal do Ethereum e depois envia os resultados de volta para ela. Segundo dados da Crypto.com de outubro de 2025, Polygon alcança entre 35 e 45 TPS em performance real, consideravelmente mais rápida que Ethereum, mas mais lento que Solana. Implementações, logo no início de 2026, aumentaram a capacidade de processamento de transações, melhoraram o custo e atualizaram o modelo de execução para o modo semelhante ao de Solana.
A tabela abaixo resume as diferenças técnicas fundamentais:
| Ethereum | Solana | Polygon 1.0 (Legacy) | Polygon 2.0 (2026) | |
|---|---|---|---|---|
| TPS real (2026) | 15-30 | 2.500-5.000 | 35-45 | Até 100.000 |
| Custo médio por transação | US$ 0,44 | US$ 0,00025 | US$ 0,0075 | < US$ 0,001 |
| Linguagem de programação | Solidity | Rust, C++ | Solidity (compatível EVM) | Solidity |
| Modelo de execução | Sequencial | Paralelo | Sequencial (side-chain) | Paralelo (Optimistic) |
| Número de validadores | 1.000.000+ | 1.500+ | 105 | 105 (Staking Layer) |
Fontes: Ledger Academy, Backpack Exchange, Crypto.com
Arquitetura de contratos: por que isso importa para tokenização
A diferença de arquitetura entre essas redes não é meramente técnica. Afeta diretamente como estruturar um projeto de tokenização.
No modelo Ethereum (EVM), cada smart contract mantém seu próprio estado, ou seja, armazena dados internamente. Se você tokeniza um ativo imobiliário, o contrato armazena informações sobre propriedade, transferências, divisões fracionadas. Segundo análise da Exo Technologies de outubro de 2025, esse modelo facilita a auditoria porque todo o histórico está dentro do próprio contrato, mas limita a execução paralela.
No modelo Solana (SVM), os contratos são stateless (sem estado interno). Os dados ficam em contas separadas que são passadas explicitamente para o programa durante a execução. Isso permite que múltiplas transações rodem simultaneamente se não competem pelas mesmas contas, mas exige repensar completamente a arquitetura. Um desenvolvedor acostumado com Solidity precisa reaprender como estruturar a lógica de negócio na linguagem Rust.
Para projetos de tokenização, essa diferença se traduz em:
Vantagens do modelo EVM (Ethereum, Polygon):
- Auditoria simplificada (estado consolidado no contrato)
- Ecossistema maduro de ferramentas de desenvolvimento e documentação
- Padrões estabelecidos (ERC-20 para tokens fungíveis, ERC-721 para NFTs)
- Maior número de auditores de segurança disponíveis
Desvantagens do modelo EVM:
- Execução sequencial limita o volume de transações processadas
- Custos mais altos por transação (especialmente Ethereum)
- Maior complexidade em camadas 2 (Polygon)
Vantagens do modelo SVM (Solana):
- Execução paralela permite maior volume de transações simultâneas
- Custos drasticamente menores (US$ 0,00025 vs US$ 0,44)
- Velocidade de finalização (400-600 milissegundos)
Desvantagens do modelo SVM:
- Ecossistema de desenvolvimento menos maduro
- Histórico de instabilidade de rede (5 quedas maiores entre 2021-2023, embora com 99,9% de uptime em 2024-2025, segundo a Backpack Exchange)
- Requer reescrita completa de contratos (não compatível com Solidity)
Tokenização na prática: quem usa o quê e por quê
O mercado brasileiro de tokenização movimentou aproximadamente R$ 4 bilhões em 2025, crescimento de 207% em relação a 2024, segundo artigo do CNB/SP de janeiro de 2026. As principais empresas fizeram escolhas diferentes de blockchains baseadas em seus casos de uso específicos.
Ethereum domina a tokenização institucional globalmente. O fundo BUIDL da BlackRock, lançado em março de 2024, alcançou US$ 2,9 bilhões em valor total bloqueado (TVL, total value locked), tokenizando títulos do Tesouro americano diretamente na rede Ethereum, segundo relatório da Propeller Industries de dezembro de 2025. A gestora de fundos Franklin Templeton mantém US$ 594 milhões em seu fundo FOBXX distribuído entre Ethereum, Solana e outras redes.
A preferência institucional por Ethereum se explica por três fatores:
- Maturidade regulatória: Ethereum foi aprovado pela SEC (Securities and Exchange Commission, comissão de valores mobiliários dos EUA) para ETFs (exchange-traded funds, fundos negociados em bolsa) em julho de 2024, sinalizando aceitação institucional.
- Infraestrutura de custódia: Empresas como Bank of New York Mellon já oferecem custódia institucional para ativos em Ethereum.
- Compatibilidade: Padrões como ERC-1400 e ERC-3643 foram desenvolvidos especificamente para valores mobiliários tokenizados, incluindo lista de endereços autorizados que passaram por KYC/AML (Know Your Customer/Anti-Money Laundering, verificação de identidade e prevenção à lavagem de dinheiro).
No Brasil, a escolha varia por tipo de ativo. A Mannah usou a Hathor Network, blockchain brasileira com arquitetura própria, para tokenizar R$ 1 bilhão em precatórios do Maranhão, priorizando custos operacionais próximos a zero para processar milhares de registros de dívidas judiciais.
A Liqi captou R$ 62 milhões em 2023 e anunciou parceria para tokenizar até US$ 500 milhões com a rede XDC Network em 2025. A empresa trabalha principalmente com recebíveis, crédito privado e ativos de times de futebol, operando sob regulamentação da CVM através da Resolução 88, que estabelece regras para crowdfunding (financiamento coletivo) tokenizado.
Já a Zuvia é uma plataforma de investimentos e crowdfunding tokenizados, também regulada pela CVM e integrada à B3, tokenizando precatórios e renda fixa digital. Desde de 2022, a empresa já tokenizou mais de R$ 70 milhões em ativos RWA securitizados, incluindo recebíveis, notas comerciais, precatórios e ativos imobiliários.
MB Tokens e Vórtx QR, que juntas tokenizaram R$ 440 milhões em 2023, trabalham com debêntures, CRI (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRA (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), instrumentos que exigem compatibilidade com infraestrutura regulatória existente da CVM. A MB utiliza majoritariamente a rede Ethereum, enquanto a Vórtx QR utiliza a brasileira Hathor Network.
O contexto regulatório brasileiro define escolhas técnicas
A regulamentação brasileira para tokenização está em construção constante e acelerada, mas já estabelece limitações práticas que influenciam a escolha da blockchain.
Lei 14.478/2022 (BVAL, Brazilian Virtual Assets Law) entrou em vigor em 2023, estabelecendo diretrizes gerais para prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs, Virtual Asset Service Providers). Entre 2024 e 2025, o Banco Central lançou consultas públicas 109, 110 e 111, propondo normas para autorização e funcionamento dessas empresas.
A CVM publicou o Parecer de Orientação 40 em outubro de 2022, esclarecendo que tokenização em si não exige aprovação prévia, mas tokens que representam valores mobiliários estão sujeitos a todas as regras do mercado de capitais, ou seja, precisam de registro de oferta, intermediação por instituições autorizadas e escrituração adequada.
A Resolução CVM 88, revista em consulta pública que se estendeu até janeiro de 2026, permite captação de até R$ 25 milhões para empresas e R$ 50 milhões para securitizadoras via crowdfunding tokenizado. Essa norma tem sido o principal veículo jurídico para tokenização de recebíveis no Brasil.
O volume de ativos tokenizados no Brasil saltou de R$ 542 milhões em 2023 para R$ 1,3 bilhão em 2024 e aproximadamente R$ 4 bilhões em 2025. Projeções apontam R$ 25 bilhões até 2027 só no Brasil, segundo artigo do CNB/SP.
Essa explosão de crescimento ocorre em ambiente regulatório ainda em maturação. O Banco Central planeja finalizar a regulamentação completa de VASPs e stablecoins, enquanto a CVM trabalha em adaptações das Resoluções 135/2022 (mercados organizados) e 31/2022 (depositários centrais) para acomodar negociação de valores mobiliários tokenizados.
Para empresas de tokenização, isso significa:
- Preferência por blockchains com histórico regulatório: Ethereum tem precedentes de aprovação pela SEC (EUA) e outras autoridades. Solana, embora tecnicamente superior em alguns aspectos, tem histórico regulatório menos estabelecido.
- Necessidade de custódia adequada: Tokens que representam valores mobiliários precisam ter custódia por instituições autorizadas pela CVM. Isso favorece redes onde já existem custodiantes licenciados.
- Interoperabilidade com sistemas tradicionais: Muitos projetos precisam integrar com sistemas de escrituração existentes (CETIP, B3). Ter a compatibilidade com padrões estabelecidos é mais vantajoso.
O que não se resolve com blockchain mais rápida e barata
Velocidade de transação e custos não são os principais gargalos da tokenização no Brasil.
O maior desafio é segurança jurídica. Segundo artigo da Conjur de outubro de 2025, a Corregedoria-Geral da Justiça de Santa Catarina emitiu Circular 410, proibindo oficiais de registro de realizarem “qualquer anotação, averbação ou registro que vincule a matrícula imobiliária a tokens digitais”. A decisão foi fundamentada na ausência de legislação federal autorizativa.
Esse caso ilustra a limitação estrutural: a blockchain oferece registro imutável, mas não confere a validade que o registro público tradicional ainda proporciona. Investidores institucionais hesitam em aportar volumes significativos sem essas garantias jurídicas tradicionais. Nesse sentido é preciso aliar registros híbridos, ou seja, on-chain e off-chain simultaneamente para estabelecer a maturidade do mercado.
O segundo desafio é a interoperabilidade. Ativos tokenizados em redes diferentes não conversam entre si nativamente. Se a MB Tokens tokeniza recebíveis em Ethereum e a Liqi trabalha com XDC Network, não há liquidez cruzada. É como ter documentos físicos que transitam em um sistema de correios, mas não conseguem transitar em outro sistema paralelo. Esse gargalo dificulta o mercado secundário de vendas, liquidação e transferência de ativos.
O terceiro desafio é o custo total de implementação. Segundo análise da 4IRE Labs de dezembro de 2025, tokenizar ativos custa entre US$ 100 mil e US$ 300 mil, sendo a maior parte gasto com assessoria jurídica e licenciamento regulatório. O custo de transação das blockchains em si não é o principal impeditivo de uma implementação.
Para pequenas e médias empresas que a Resolução CVM 88 visa atender, esses altos custos de implementação podem ser proibitivos independentemente de usar Ethereum a US$ 0,44 por transação ou Solana a US$ 0,00025.
Outras redes no ecossistema de tokenização
Além de Ethereum, Solana e Polygon, outras blockchains competem por projetos de tokenização.
Arbitrum, camada 2 do Ethereum, hospeda mais de 110 ativos RWA com US$ 616 milhões em capitalização de mercado, quase metade do total tokenizado em camadas 2, segundo dados da INX.one de novembro de 2025.
Base, outra camada 2 do Ethereum desenvolvida pela Coinbase, oferece compatibilidade EVM com custos reduzidos e está atraindo projetos institucionais por conta da reputação regulatória da exchange Coinbase.
Avalanche processa aproximadamente 4.500 TPS com custos médios de US$ 0,055 por transação, posicionando-se entre Ethereum e Solana em termos de performance e custo.
A escolha entre essas redes depende de três variáveis principais:
- Volume de transações esperado: Projetos com milhares de transferências diárias se beneficiam de Solana ou Avalanche. Projetos com poucas transações de alto valor funcionam bem em Ethereum.
- Necessidade de compatibilidade EVM: Se há contratos existentes em Solidity ou necessidade de interoperabilidade com ecossistema Ethereum, os protocolos Polygon, Arbitrum ou Base fazem sentido.
- Requisitos regulatórios: Instituições financeiras reguladas tendem a preferir Ethereum ou suas camadas 2 por histórico de aprovação regulatória.
Não existe uma melhor, existe a mais adequada
Não existe blockchain melhor para tokenização, existem trade-offs a depender do que se espera em termos de aplicação, utilidade e estratégia de longo prazo.
Ethereum oferece descentralização robusta (1.000.000+ validadores) e ecossistema maduro, mas cobra US$ 0,44 por transação. Solana entrega velocidade excepcional (600-700 TPS real) e custos ínfimos (US$ 0,00025), mas tem histórico de instabilidade e ecossistema de desenvolvimento menos estabelecido. Polygon equilibra compatibilidade EVM com custos reduzidos, mas adiciona complexidade da camada 2.
Para empresas brasileiras tokenizando recebíveis, precatórios ou crédito privado, a decisão técnica vem depois da decisão regulatória. A MB Tokens, Liqi, Mannah, Zuvia e Vórtx QR escolheram blockchains diferentes não por superioridade técnica, mas por adequação a casos de uso específicos dentro do arcabouço regulatório da CVM e do Banco Central.
O mercado global de RWA alcançou aproximadamente US$ 33 bilhões em outubro de 2025 segundo XBTO, com projeção de US$ 16-30 trilhões até 2030-2034. No Brasil, o crescimento de R$ 542 milhões (2023) para R$ 4 bilhões (2025) demonstra tração real.
A pergunta que define o futuro da tokenização não é “qual é a melhor blockchain?”. E sim: como integrar a blockchain com a segurança jurídica dos meios tradicionais de forma que investidores institucionais confiem o suficiente para aportar os bilhões na transformação da nova economia?