Como moedas digitais ancoradas em dólar processam US$ 32 trilhões por ano sem que a maioria das pessoas perceba
Em maio de 2022, TerraUSD (UST), uma stablecoin criada para manter seu valor estável em US$ 1, perdeu completamente sua ancoragem em questão de dias.
O preço despencou de US$ 1 para US$ 0,10, depois para meros centavos. Cerca de US$ 40 bilhões em valor foram destruídos em uma semana, segundo documentação da SEC e análises publicadas pela Chainalysis. O colapso não foi causado por um hack externo nem por uma falha criptográfica, foi uma crise de confiança num mecanismo algorítmico que prometia estabilidade sem lastro real.
O caso da TerraUSD ilustra uma tensão fundamental em stablecoins: são ferramentas poderosas para movimentar dinheiro digitalmente, mas sua confiabilidade depende de algo além de linhas de código. Depende de reservas verificáveis, auditadas e de design que resista a pressões de mercado. É nesse contexto que um mercado de US$ 300 bilhões em stablecoins processou US$ 32 trilhões em transações em 2024, segundo dados da BVNK. O volume supera países inteiros, mas permanece invisível para quem não opera em criptomoedas ou pagamentos internacionais.
Uma comparação útil: Pix e stablecoins resolvem problemas parecidos
Para entender stablecoins sem precisar mergulhar no universo técnico, vale olhar para o Pix. Ambos solucionam fricção em pagamentos, mas em contextos diferentes.
O Pix, lançado pelo Banco Central em novembro de 2020, processou 63,8 bilhões de transações em 2024, movimentando R$ 26,9 trilhões, conforme dados oficiais da Febraban. Funciona 24/7, liquidação em segundos, sem intermediários bancários tradicionais. Qualquer pessoa com conta bancária no Brasil transfere para qualquer outra pessoa ou empresa instantaneamente. O sistema é centralizado, operado pelo BC, e funciona dentro das fronteiras nacionais.
Stablecoins funcionam de forma análoga, mas operam em redes blockchain públicas, sem fronteiras geográficas. Em vez de reais, representam dólares (ou euros, ou outras moedas) em formato digital. A promessa é semelhante ao Pix: velocidade, custo baixo, disponibilidade 24/7, por enquanto, na divulgação desse artigo, sem IOF. Isso mesmo, uma transação sem as taxas de uma remessa tradicional. A diferença está na infraestrutura: descentralizada, global, e sem um banco central coordenando. Essa diferença traz vantagens como acesso a qualquer pessoa com internet no planeta e riscos estruturais que o Pix, por design, não enfrenta.
O mercado de stablecoins: utilidade comprovada
Segundo dados compilados pela Arkham Intelligence em outubro de 2025, o mercado de stablecoins ultrapassou US$ 300 bilhões em capitalização total, partindo de US$ 205 bilhões no início de 2024. Em dezembro de 2024, o mercado havia superado pela primeira vez a marca de US$ 200 bilhões, conforme reportado por CCData e DefiLlama.
Esse crescimento concentra-se em dois emissores principais. USDT (Tether) representa 58% do mercado (~US$ 176 bilhões), enquanto USDC (Circle) responde por 25% (~US$ 74 bilhões), segundo Arkham Intelligence. Os 17% restantes distribuem-se entre dezenas de emissores menores. Essa concentração sugere efeito de rede: usuários preferem stablecoins com liquidez estabelecida.
O volume transacional é ainda mais expressivo. Dados da BVNK mostram que stablecoins processaram US$ 32 trilhões em 2024. Desse total, aproximadamente US$ 5,7 trilhões foram utilizados especificamente para pagamentos cross-border, segundo análise da Visa. O restante concentra-se em trading de criptomoedas e arbitragem entre exchanges (corretoras).
Para contextualizar: o Pix brasileiro processou R$ 26,9 trilhões em 2024 (aproximadamente US$ 5,4 trilhões na cotação média do ano), atendendo 178,9 milhões de usuários em um único país. Stablecoins, operando globalmente com infraestrutura fragmentada, movimentaram volume seis vezes maior, mas com concentração em casos de uso ainda relativamente especializados.
Como funcionam: tipos de stablecoins e seus trade-offs
Stablecoins tentam manter paridade com uma moeda fiduciária (geralmente o dólar). Existem três abordagens principais, cada uma com prós e contras diferentes.
Stablecoins lastreadas em fiat (fiat-backed)
USDT e USDC operam nesse modelo. Para cada token emitido, a empresa mantém reserva equivalente em dólares, títulos do Tesouro americano ou ativos de alta liquidez. A Circle (emissora do USDC) publica relatórios mensais de transparência auditados pela Deloitte, mostrando reservas 1:1. A Tether declara seus documentos trimestrais.
- Vantagem: estabilidade previsível enquanto as reservas forem reais e auditadas.
- Desvantagem: centralização, você precisa confiar que a empresa realmente possui os ativos que diz possuir.
Stablecoins colateralizadas em cripto (crypto-backed)
DAI, emitido pelo protocolo MakerDAO, usa esse modelo. O token é lastreado por criptomoedas como Ethereum depositadas como colateral em contratos inteligentes. Como criptomoedas são voláteis, exige-se sobre-colateralização (por exemplo, US$ 150 em ETH para emitir US$ 100 em DAI).
- Vantagem: transparência total, qualquer pessoa pode auditar as reservas na rede blockchain.
- Desvantagem: ineficiência de capital e complexidade técnica.
Stablecoins algorítmicas (algorithmic)
TerraUSD usava esse modelo. Em vez de lastro real, um algoritmo ajustava oferta e demanda usando um token irmão (LUNA) para manter a paridade. Quando UST caía abaixo de US$ 1, usuários podiam queimar 1 UST para receber US$ 1 em LUNA, reduzindo oferta e teoricamente restaurando essa ancoragem de valores dos ativos (peg).
O mecanismo funcionou enquanto havia confiança. Em maio de 2022, uma venda de US$ 85 milhões de UST na Curve Finance desestabilizou o peg. Holders, que são investidores da moeda, entraram em pânico. O algoritmo começou a emitir LUNA descontroladamente para absorver a pressão de venda, hiperinflando a oferta de LUNA de milhões para trilhões de tokens. LUNA colapsou de US$ 119 para centavos de dólar.
Cerca de US$ 40 bilhões em capitalização de mercado foram destruídos em uma semana, conforme documentado pela Wikipedia com base em dados públicos da época.
Segundo relatório da Chainalysis publicado em junho de 2022, a Terraform Labs tentou defender o peg usando aproximadamente US$ 480 milhões em reservas de Bitcoin, mas falhou. O caso levou à condenação criminal de Do Kwon, fundador da Terraform Labs, que recebeu sentença de 15 anos de prisão em dezembro de 2025 por fraude em escala de US$ 40 bilhões, segundo reportagem da IBTimes.
O colapso da TerraUSD não eliminou stablecoins algorítmicas, mas as colocou em nichos experimentais. O mercado migrou decisivamente para modelos lastreados em ativos verificáveis como moedas fiduciárias e criptoativos.
Casos reais: onde stablecoins são usadas hoje
Pagamentos cross-border e remessas
O relatório do FMI publicado em dezembro de 2025 mostrou que remessas internacionais via canais tradicionais podem custar até 20% do valor enviado, especialmente entre países em desenvolvimento. Stablecoins oferecem alternativa com custos entre 0,5% e 2%, segundo análise da BVNK.
Pesquisa acadêmica publicada na revista Telematics and Informatics em fevereiro de 2025 identificou que 26% dos adultos americanos que enviam remessas já adotaram stablecoins. O estudo, baseado em pesquisa com 866 respondentes, mostra que usuários tendem a ser mais jovens, com educação elevada e fazem transações de maior valor.
O relatório da Artemis, em parceria com Castle Island Ventures, apresentou um crescimento de 30 vezes em pagamentos B2B usando stablecoins: de menos de US$ 100 milhões mensais no início de 2023 para mais de US$ 3 bilhões mensais em 2025. Corredores mais ativos incluem EUA-México, Singapura-China, e Hong Kong como hub regional.
PayPal anunciou em 2023 o lançamento da PYUSD, emitida pela Paxos Trust Company e regulada pelo NYDFS. A empresa integrou stablecoins ao Xoom, seu serviço de remessas, permitindo liquidação fora de “horário bancário tradicional”, conforme comunicado oficial.
Trading e liquidez em exchanges
A maior parte do volume de stablecoins ainda concentra-se em trading de criptomoedas. Traders usam USDT e USDC como “porto seguro” quando querem sair de posições voláteis sem converter para fiat (moeda fiduciária como dólar, real, Euro) e pagar taxas de saque bancário. Isso explica por que exchanges de cripto são os maiores detentores de stablecoins.
Segundo análise da McKinsey publicada em julho de 2025, aproximadamente US$ 20 trilhões dos US$ 27 trilhões em volume de stablecoins em 2024 foram utilizados para compra de criptomoedas. Apenas aproximadamente 3% do volume global de pagamentos cross-border (US$ 200 trilhões anuais) utiliza stablecoins, mas essa participação está crescendo.
Limitações estruturais e riscos remanescentes
Mesmo stablecoins lastreadas em fiat não são livres de risco.
Em março de 2023, USDC experimentou breve desancoragem quando o Silicon Valley Bank (SVB) colapsou. A Circle mantinha US$ 3,3 bilhões em reservas no SVB. Quando o banco quebrou, o USDC caiu temporariamente para US$ 0,88 antes de se recuperar após o governo americano garantir todos os depósitos, conforme documentado pela MacroMicro. O incidente demonstrou que mesmo stablecoins consolidadas estão expostas a riscos do sistema bancário tradicional.
Outro risco: irreversibilidade. Transferências blockchain não podem ser desfeitas. Se você envia stablecoins para endereço errado, não há suporte técnico para recuperar. Isso contrasta com Pix, onde o Banco Central pode mediar disputas e, em casos de fraude comprovada, reverter transações.
Além disso, volatilidade temporária pode ocorrer. Mesmo USDT, a maior stablecoin, caiu brevemente para US$ 0,97 durante o pânico da TerraUSD em maio de 2022, segundo dados da Chainalysis. Embora tenha se recuperado rapidamente e processado US$ 13 bilhões em resgates em uma semana, o episódio mostrou que confiança pode evaporar rapidamente.
Regulação: Europa avança, outros mercados seguem
A União Europeia aprovou em abril de 2023 o MiCA (Markets in Crypto-Assets), Regulamento (EU) 2023/1114, estabelecendo o primeiro framework regulatório abrangente para criptoativos em uma jurisdição major. Segundo documentação da ESMA (European Securities and Markets Authority), MiCA entrou em vigor em fases:
- 30 de junho de 2024: regras para stablecoins (ARTs – Asset-Referenced Tokens e EMTs – E-Money Tokens)
- 30 de dezembro de 2024: framework completo para provedores de serviços (CASPs – Crypto-Asset Service Providers)
MiCA exige que emissores de stablecoins mantenham reservas 1:1 em ativos líquidos, publiquem whitepapers aprovados por autoridades nacionais, e se submetam a auditorias regulares. Stablecoins não-conformes começaram a ser removidas de exchanges europeias no primeiro trimestre de 2025, conforme orientação da ESMA publicada em dezembro de 2024.
Nos Estados Unidos, a regulação permanece fragmentada. O NYDFS (New York Department of Financial Services) regula emissores como Paxos e Gemini no nível estadual. Em fevereiro de 2023, o NYDFS ordenou que a Paxos interrompesse emissão de BUSD (stablecoin emitida para Binance) por descumprimento de requisitos de transparência, em nota oficial da agência.
Projetos de lei federal sobre stablecoins circulam no Congresso americano desde 2023, mas ainda não foram aprovados. A Asset manager Bitwise projeta que legislação federal nos EUA seria catalisador para mercado de stablecoins atingir US$ 400 bilhões em 2025, segundo a CoinDesk em dezembro de 2024.
Implicações práticas: quando faz sentido usar stablecoins
Para empresas que operam internacionalmente, stablecoins oferecem trade-off específico: velocidade e custo reduzido versus complexidade operacional e riscos regulatórios.
Casos onde podem fazer sentido:
- Remessas frequentes em corredores específicos (EUA-México, Singapura-China) onde bancos cobram 5-7%
- Pagamentos B2B internacionais com necessidade de liquidação rápida (minutos vs 3-5 dias)
- Empresas com operação nativa em cripto que querem evitar conversão constante fiat-cripto
Casos onde provavelmente não fazem sentido:
- Transações domésticas em países com sistemas de pagamento instantâneo eficientes (Pix no Brasil, UPI na Índia)
- Pagamentos de alto valor onde irreversibilidade é risco inaceitável
- Empresas sem capacidade técnica para gerenciar chaves privadas e custódia segura
Convergência ou coexistência?
O Pix demonstra que sistemas centralizados podem ser extremamente eficientes quando bem projetados. Em cinco anos, tornou-se o método de pagamento mais usado no Brasil, superando cartões e TED. Stablecoins demonstram que redes descentralizadas globais podem processar volumes trilionários, mas ainda carregam riscos que sistemas regulados nacionais mitigaram.
A questão não é qual tecnologia é a melhor, mas quais problemas cada uma resolve melhor. Pix otimiza pagamentos domésticos instantâneos em real. Stablecoins facilitam fluxos cross-border em dólar digital sem intermediários bancários. Ambos coexistem porque atendem necessidades diferentes.
Resta saber: à medida que bancos centrais lançam moedas digitais próprias (CBDCs), qual espaço permanecerá para stablecoins privadas? E se regulação global convergir para padrões como MiCA, stablecoins se tornarão apenas outra camada do sistema financeiro tradicional — ou manterão características que justificam sua existência independente?
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