Quando empresas consolidadas de pagamento escolhem uma infraestrutura blockchain específica, a decisão revela mais sobre o futuro dos mercados financeiros do que sobre tecnologia
Em dezembro de 2025, a Visa anunciou permitir que bancos norte-americanos liquidassem pagamentos usando a stablecoin USDC, moeda digital lastreada em dólar, diretamente na blockchain Solana. O Cross River Bank e a Lead Bank se tornaram os primeiros participantes, processando valores reais em uma rede pública descentralizada.
O anúncio chamou atenção não pelo uso de stablecoins, pois a Visa já processava US$ 3,5 bilhões ano a ano em liquidação com criptomoedas desde 2023, mas foi pela escolha específica da Solana como infraestrutura.
Dias antes do anúncio, o JPMorgan havia emitido US$ 50 milhões em instrumentos de dívida corporativa de curto prazo da Galaxy Digital também na Solana, tendo a corretora Coinbase e a gestora de fundo Franklin Templeton como compradores. Duas decisões institucionais consecutivas, usando a mesma blockchain, para operações financeiras tradicionais diferentes: liquidação de pagamentos e emissão de dívida.
O que este artigo explora:
- Como a Visa está usando Solana tecnicamente e por que essa escolha
- Trade-offs entre diferentes blockchains públicas e o que instituições financeiras priorizam
- Se a movimentação indica tendência estrutural ou experimentação tática
Por trás do cartão: a diferença entre pagar e liquidar
Quando você usa cartão Visa em qualquer compra, a experiência visível é a aprovação instantânea e não há como saber pelo terminal se houve uso da blockchain. O que a Visa mudou acontece nos bastidores, no processo chamado settlement (liquidação), que é a transferência efetiva de fundos entre bancos dias depois da compra.
Tradicionalmente, essa liquidação acontece via sistemas bancários convencionais, operando apenas em dias úteis, com janelas de processamento restritas. Se um banco precisa transferir valores à Visa numa sexta-feira à noite, precisa esperar até segunda-feira. O sistema tradicional funciona, mas carrega limitações estruturais: opera 5 dias por semana, requer múltiplos intermediários, e não oferece visibilidade instantânea das posições de liquidez.
A Visa começou a testar a liquidação via stablecoins em 2021, expandiu para Solana em setembro de 2023 com parceiros como Worldpay e Nuvei, e agora lançou o programa para bancos norte-americanos. Segundo comunicado oficial da Visa, a escolha de stablecoins permite “movimentação mais rápida de fundos através de blockchains, disponibilidade 7 dias por semana e resiliência operacional aprimorada em finais de semana e feriados, sem nenhuma mudança na experiência do consumidor com cartão da bandeira.”
Ou seja, liquidação 24/7 com custos previsíveis, algo que sistemas bancários tradicionais não oferecem nativamente. A pergunta central: por que escolher Solana especificamente para essa função?
Performance técnica: Solana vs Ethereum na prática
Solana e Ethereum são dois protocolos que representam filosofias arquitetônicas diferentes. Enquanto a Ethereum opera com estrutura modular que prioriza segurança e descentralização, delegando escalabilidade para soluções de segunda camada, a Solana adota abordagem monolítica, integrando execução, consenso e disponibilidade de dados numa única camada base otimizada para throughput (capacidade de processamento), ou seja, em uma perspectiva mais estratégica a Solana entrega velocidade, alto volume de processamento e custo baixo para casos de uso como liquidação e dívida de curto prazo.
Os números refletem essas escolhas. Segundo a documentação da própria Visa publicada em setembro de 2023, a Solana processa em média 400 transações por segundo (TPS), com picos acima de 2.000 TPS, e tempo de bloco de 400 milissegundos. Já a Ethereum processa 15-30 TPS com blocos de 12 segundos. Em termos de custo, as transações na Solana custam aproximadamente US$ 0,00001, enquanto transferências simples na Ethereum variam entre US$ 5 e US$ 20, chegando a US$ 150 para operações DeFi (finanças descentralizadas) mais complexas.
Imagine que você precisa fazer milhares de transferências Pix diariamente entre diferentes contas, mas cada transferência custa entre R$ 25 e R$ 75. É inviável. Agora, imagine o mesmo volume custando centavos por transação e confirmando em menos de meio segundo. Essa é a diferença prática que explica por que instituições financeiras avaliam Solana para operações de alto volume.
O head de growth da Solana, Nick Ducoff, comentou sobre o caso do JPMorgan que a arquitetura da rede permite que empresas gerenciem transações com a velocidade exigida em mercados de crédito de curto prazo, principalmente quando a liquidação precisa acontecer rápido, com operações simultâneas e de forma segura.
Mas velocidade tem custo: os trade-offs da escolha
A Solana não é universalmente superior. Opera com aproximadamente 1.500 validadores ativos, comparado aos mais de 900.000 validadores da Ethereum. Isso gera mais centralização estrutural em troca de performance. A rede também enfrentou múltiplas interrupções desde seu lançamento em 2020, com períodos de interrupção causados por congestionamento de transações ou problemas de consenso.
Para empresas como Visa processando valores reais, a interrupção representa alto risco operacional. A questão não é se a Solana é melhor que a Ethereum, mas avaliar os trade-offs de maior velocidade e custo baixo versus maior centralização e histórico de instabilidade.
A Visa não está substituindo a infraestrutura existente por Solana. Está adicionando a Solana como opção de liquidação, mantendo sistemas convencionais operando em paralelo. Isso sugere uma experimentação controlada, não a aposta definitiva que combina transações off-chain com on-chain, ou seja, operação que usa estruturas tradicionais e da blockchain.
A estratégia multi-chain
Em julho de 2025, a Visa anunciou suporte para múltiplas blockchains e stablecoins em seu programa piloto, oferecendo aos parceiros mais flexibilidade em como liquidam obrigações na VisaNet. A Ethereum permanece como opção, mas a Solana foi adicionada primeiro. A estratégia não é exclusividade, mas abrir espaço para protocolos que consigam apoiar nas operações.
Empresas como do Cross River Bank, um dos primeiros participantes do programa, precisam de interoperabilidade. Segundo Gilles Gade, fundador e CEO do Cross River, “inovadores de fintech e cripto cada vez mais nos pedem para trazer stablecoins para seus produtos existentes. Uma plataforma unificada que suporta nativamente tanto stablecoins quanto redes de pagamento tradicionais se tornará fundação para mover valores globalmente.”
Bancos querem infraestrutura que funcione integrando sistemas tradicionais com as redes da Ethereum, Solana e futuras blockchains ainda desconhecidas. A escolha de Solana não exclui outras redes, mas amplia o portfólio de ferramentas disponíveis.
O timing para o regulatório importa
O lançamento do programa de liquidação com stablecoins nos Estados Unidos aconteceu meses depois da aprovação da primeira regulamentação federal para stablecoins, GENIUS Act, em julho de 2025. A legislação trouxe clareza sobre requisitos de reserva, auditoria e compliance, reduzindo incerteza jurídica que anteriormente impedia adoção institucional mais ampla.
O CEO do Lead Bank, Jackie Reses, comentou que esta capacidade traz velocidade e precisão para operações de tesouraria e ajuda a entregar serviços financeiros modernos para as comunidades que atendem. A ideia revela algo importante: não é apenas sobre tecnologia, mas sobre operações de tesouraria buscando eficiência dentro de frameworks regulatórios claros.
A Visa também se tornou parceira estratégica da Arc, nova blockchain Layer 1 desenvolvida pela Circle (emissora do USDC). Segundo comunicado oficial, a Arc tem design específico para oferecer a performance e escalabilidade necessárias para suportar atividade comercial global da Visa on-chain. A Visa planeja usar Arc para liquidação USDC dentro de sua rede e operar um nó validador quando a rede entrar em produção.
Isso sugere uma estratégia de longo prazo: usar Solana hoje enquanto desenvolve uma infraestrutura proprietária para amanhã, mantendo Ethereum como base de segurança. Não é uma escolha binária entre blockchains, mas um portfólio diversificado de infraestrutura baseado em diferentes casos de uso.
O padrão emergente: instituições escolhendo Solana para operações específicas
O movimento da Visa não acontece isolado. JPMorgan emitiu US$ 50 milhões tokenizado de dívida corporativa de curto prazo na Solana via instrumento chamado USCP, com liquidação também em USDC. Scott Lucas, head de ativos digitais de mercados no JPMorgan, declarou que a transação demonstra apetite institucional por ativos digitais e a capacidade de trazer novos instrumentos on-chain, usando Solana.
O padrão que emerge: as instituições usam Solana para operações que priorizam alta capacidade de processamento e custos baixos para liquidação de pagamentos, emissão de dívida de curto prazo em mercados que processam milhares de transações diárias. A Ethereum continua dominante para ativos de maior valor ou aplicações que priorizam máxima descentralização.
Segundo projeções do banco britânico Standard Chartered, o mercado de ativos reais tokenizados (RWA, Real-World Assets) pode atingir US$ 30 trilhões até 2034. Contextualizando: o mercado cripto total em 2025 valia aproximadamente US$ 3 trilhões. As RWAs representariam 10x esse valor. A escolha de blockchains específicas para diferentes tipos de ativos será determinante para quem capturar essa oportunidade.
Limitações que precisam ser reconhecidas
Apesar do volume de US$ 3,5 bilhões anualizados que a Visa já processa em liquidação com stablecoins, esse número representa fração minúscula do volume total da rede. A Visa processa trilhões de dólares anualmente. A liquidação via blockchain ainda é marginal.
A própria Visa reconhece que a expansão para mais parceiros bancários nos Estados Unidos acontecerá ao longo de 2026, indicando uma expansão gradual. Não é a substituição imediata da infraestrutura existente, mas camada adicional sendo testada em produção.
Solana também enfrenta críticas estruturais. Seu histórico de interrupções de rede, incluindo tempo fora de operação de várias horas em incidentes passados, representa risco para operações financeiras críticas. Embora a rede tenha evoluído tecnicamente desde 2020, o histórico de confiabilidade ainda está sendo construído.
A pergunta não respondida: se Solana enfrentar outro período de interrupção enquanto liquidações da Visa estiverem pendentes, como isso afeta operações? A Visa tem sistemas de reserva para falhas (fallback), mas o risco operacional sempre existe.
Decisão técnica ou posicionamento estratégico?
A resposta provavelmente é: ambos, simultaneamente.
Tecnicamente, a Solana oferece características que importam para a liquidação de alto volume com custos baixos e finalização rápida. Para casos de uso específicos como liquidação que não requerem máxima descentralização, mas priorizam eficiência operacional, a Solana apresenta vantagens mensuráveis versus a camada da Ethereum.
Estrategicamente, a Visa está se posicionando como agnóstica em infraestrutura blockchain, construindo relacionamentos sem exclusividade com múltiplas redes enquanto desenvolve a capacidade própria com a Arc.
Rubail Birwadker, head global de produtos de crescimento na Visa, declarou: “a Visa está expandindo a liquidação com stablecoins porque nossos parceiros bancários não estão apenas perguntando sobre isso, estão se preparando para usar.” O timing deste movimento aconteceu porque a infraestrutura regulatória amadureceu (GENIUS Act), enquanto a tecnologia (Solana) se estabilizou e a demanda institucional avançou.
Quando JPMorgan e Visa escolhem a mesma blockchain para operações diferentes na mesma semana, o sinal de mercado é claro: Solana cruzou o nível de confiabilidade institucional suficiente para operações reais.
Perguntas que permanecem sem resposta
Se a liquidação via blockchain oferece vantagens tão claras como disponibilidade 24/7, custos menores, liquidez visível em tempo real, por que ainda representa fração minúscula do volume total processado? As barreiras são técnicas, regulatórias, operacionais, ou inércia institucional?
À medida que mais bancos adotam liquidação via stablecoins na Solana, surge competição direta com sistemas tradicionais de compensação bancária. Esses sistemas têm décadas de confiabilidade comprovada, mas operam com limitações estruturais.
A Visa está construindo a Arc como blockchain proprietária para liquidação futura. Se a Arc entregar performance superior à Solana mantendo controle institucional, a Visa migrará as operações?
As decisões de infraestrutura blockchain que empresas consolidadas estão tomando hoje não são apenas sobre tecnologia. São apostas sobre como os mercados financeiros vão se organizar nos próximos 10 anos. E essas apostas estão sendo feitas agora.